Dor no pescoço no trabalho: o que a ciência diz sobre postura, celular e prevenção
31/08/2026
Dor cervical é uma das queixas musculoesqueléticas mais comuns entre trabalhadores, especialmente em funções que exigem longos períodos sentado, uso constante de computador e celular, ou posições fixas durante a jornada. Este é um quadro que, quando não tratado, pode evoluir para LER/DORT. Por anos, a explicação mais repetida, tanto no senso comum quanto em recomendações de ergonomia, foi simples: olhar para baixo, para telas de celular ou monitores, sobrecarrega a região cervical e causa dor. Esse fenômeno até ganhou nome popular: text neck, ou "pescoço de texto".
Só que evidências científicas recentes têm colocado essa relação em xeque. Um estudo brasileiro publicado em 2025 acompanhou trabalhadores ao longo de 12 meses e chegou a uma conclusão que muda a forma como empresas e profissionais de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) devem pensar a prevenção da dor cervical. Neste artigo, explicamos o que a pesquisa encontrou e como aplicar isso na prática, dentro dos programas de ergonomia e saúde ocupacional.
O que diz a evidência científica
Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), no Rio de Janeiro, e publicado no Brazilian Journal of Physical Therapy (periódico oficial da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Fisioterapia), acompanhou pessoas sem dor cervical ao longo de 12 meses para identificar quais fatores realmente antecipavam o surgimento do problema.
O resultado foi direto: a postura de flexão do pescoço durante o uso do celular não se mostrou um fator de risco para dor cervical nem para sua frequência. Em contrapartida, dois fatores tiveram relação consistente com o aparecimento da dor: a qualidade do sono e o nível de atividade física.
Esse achado não é isolado. Uma revisão especializada sobre o tema lembra que o termo text neck foi criado em 2008 por um quiroprata, e que a hipótese de que a postura flexionada seria, isoladamente, a causa da dor cervical nunca teve respaldo consistente na literatura. Ela ignora a variedade de fatores que influenciam a resposta à dor e o fato de que muitas pessoas mantêm essa postura de forma habitual sem jamais desenvolver sintomas.
É importante fazer uma distinção, porém: o problema não é o celular em si. Uma metanálise recente encontrou associação significativa entre uso excessivo de smartphone (tempo e hábito de uso) e dor cervical, com risco cerca de duas vezes maior entre quem apresenta uso excessivo. Ou seja, o que parece pesar não é o ângulo do pescoço ao olhar a tela, mas os hábitos associados ao uso prolongado, menos movimento, mais tempo sentado, pior qualidade de sono.
Para o contexto ocupacional, isso significa uma mudança de foco: em vez de concentrar a prevenção exclusivamente em corrigir o ângulo da cabeça ou a altura do monitor, os programas de ergonomia (NR-17) e de saúde ocupacional ganham mais eficácia ao abordar também sono, sedentarismo e condicionamento físico como fatores de risco musculoesquelético, não apenas a postura estática.
Fatores de risco ocupacionais e individuais
Se a postura isolada não explica a dor cervical, o que efetivamente contribui para o problema no dia a dia de trabalho? A resposta é multifatorial e é justamente essa complexidade que torna a prevenção mais eficaz quando olhada de forma ampla, e não reduzida a uma única variável.
Entre os fatores com maior relação com o surgimento de dor musculoesquelética, destacam-se:
Sedentarismo e baixo nível de atividade física, como jornadas longas sentado, sem pausas ativas, reduzem a tolerância do corpo a cargas posturais mantidas.
Má qualidade do sono ou sono insuficiente está associado a maior sensibilidade à dor e menor capacidade de recuperação muscular.
Tempo prolongado na mesma posição não é a postura em si, mas a permanência prolongada sem variação de movimento, que sobrecarrega estruturas musculares e articulares.
Estresse e fatores psicossociais como tensão muscular relacionada a sobrecarga emocional e cognitiva no trabalho também é um fator já documentado na literatura sobre dor cervical (veja 10 dicas de como gerenciar o estresse no ambiente de trabalho).
Condicionamento físico e histórico de dor, pois a capacidade muscular e experiências anteriores de dor influenciam como o corpo responde às demandas físicas do trabalho.
Para empresas, isso reforça algo que os programas de SST já sabem, mas que muitas vezes fica em segundo plano: a prevenção da dor cervical não se resolve apenas ajustando o mobiliário ou orientando "postura correta". Ela depende de uma abordagem integrada, que combine ergonomia, incentivo à atividade física, atenção à qualidade do sono e gestão de fatores psicossociais.
Vale registrar que essa integração já tem respaldo regulatório: desde a atualização da NR-01 pela Portaria MTE nº 1.419/2024 (com entrada em vigor em 26 de maio de 2026, conforme a Portaria MTE nº 765/2025), os riscos psicossociais passaram a integrar formalmente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e, por consequência, o PGR no mesmo nível de rigor já aplicado a riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos. Em agosto de 2026, o STF confirmou medida cautelar na ADPF 1316, suspendendo temporariamente a aplicação de multas especificamente relacionadas aos fatores psicossociais. Essa suspensão, porém, não revoga a exigência normativa, e as empresas seguem obrigadas a identificar e gerenciar esses riscos no PGR. Ou seja: o vínculo entre estresse, sono, sedentarismo e dor musculoesquelética não é apenas uma constatação da literatura científica, é também um fator que, cada vez mais, integra formalmente a gestão de riscos ocupacionais no Brasil.
Ergonomia dinâmica: repensando a NR-17 na prática
Durante décadas, a ergonomia foi ensinada e cobrada sobre como a busca por uma postura fixa e "correta": coluna reta, tela na altura dos olhos, ombros alinhados. Essa lógica ainda orienta boa parte das adequações de posto de trabalho previstas na NR-17, e continua sendo relevante: o item 17.6.6 da norma exige, por exemplo, que os assentos tenham encosto com forma adaptada ao corpo para proteção da região lombar e borda frontal arredondada. Estes são ajustes que seguem reduzindo desconforto e favorecendo a saúde musculoesquelética.
O que a evidência atual atualiza é a ideia de que existe uma única posição ideal a ser mantida o dia inteiro. Nenhuma postura, mesmo a fisiologicamente mais correta, é confortável de forma indefinida. O corpo humano foi feito para se movimentar, e é justamente a ausência de variação postural ao longo da jornada, mais do que o ângulo específico do pescoço, que tende a gerar sobrecarga.
Vale notar que a própria NR-17 já reconhece esse princípio, o que reforça que a atualização proposta aqui não contraria a norma, pelo contrário, dialoga diretamente com ela:
Alternância de posturas prevista na própria norma: o item 17.4.5 determina que a concepção dos postos de trabalho deve "facilitar a alternância de posturas", e o item 17.6.2 estabelece que, sempre que o trabalho puder ser executado alternando a posição sentada com a posição em pé, o posto deve ser planejado para favorecer essa alternância.
Pausas como medida obrigatória em caso de sobrecarga: para atividades que exijam sobrecarga muscular estática ou dinâmica do pescoço, tronco ou membros superiores (item 17.4.2), a norma exige a adoção de pelo menos duas das seguintes medidas (item 17.4.3.1): pausas para recuperação psicofisiológica, computadas como tempo de trabalho efetivo; alternância de atividades que variem postura ou ritmo; ou alteração da forma de execução da tarefa. Quando o caso exigir uma avaliação mais aprofundada, essas medidas devem ser embasadas por uma Análise Ergonômica do Trabalho (AET).
Adaptação específica para notebooks: o item 17.7.3.2 determina que, no uso não eventual de computador portátil, devem ser previstas formas de adaptação do teclado, do mouse ou da tela às características do trabalhador. Este é um respaldo direto para o uso de suporte elevado e periféricos externos.
Na prática, isso significa que a ergonomia aplicada ao ambiente de trabalho ganha eficácia quando combina o cumprimento desses requisitos formais com uma cultura real de movimento ao longo do dia:
Pausas ativas regulares, conforme já previsto no item 17.4.3.1 da norma.
Ginástica laboral e incentivo ao movimento com programas que estimulem alongamento e mudança de postura durante o expediente.
Variação de posições de trabalho, aproveitando o que os itens 17.4.5 e 17.6.2 já preveem.
Orientação realista aos colaboradores comunicando que o objetivo não é manter a "postura perfeita" o tempo todo, e sim evitar ficar parado na mesma posição por períodos muito longos.
Essa mudança de enfoque também dialoga diretamente com o GRO: ao mapear riscos ergonômicos, faz sentido considerar não apenas o desenho do posto de trabalho, mas também a rotina de pausas, o nível de atividade física incentivado pela empresa e até a cultura de sono e recuperação dos colaboradores.
Hábitos corporativos que merecem atenção
Reuniões consecutivas em frente ao computador, uso constante do celular entre uma tarefa e outra, notebooks posicionados abaixo da linha dos olhos. Esses hábitos fazem parte da rotina de praticamente qualquer função administrativa ou operacional que envolva telas. E, como vimos, o problema não costuma estar no ângulo do pescoço em si, mas no que esse tempo de tela normalmente substitui: movimento, pausas e, em muitos casos, sono adequado.
Vale destacar alguns pontos práticos para o ambiente corporativo:
Tempo de tela em reuniões: reuniões longas e consecutivas, muitas vezes em notebooks posicionados de forma inadequada, tendem a manter o colaborador na mesma posição por períodos extensos. O alvo da orientação deve ser a pausa entre elas, não apenas o ajuste do ângulo da tela.
Uso do celular em momentos de transição: pausas curtas usadas para checar mensagens no celular podem, paradoxalmente, reduzir ainda mais o movimento corporal em vez de servir como intervalo de descanso ativo.
Notebooks vs. estações fixas: quando possível, complementar o uso de notebook com suporte elevado e teclado externo reduz a flexão prolongada do pescoço. Esta é uma medida de conforto, ainda que não seja, isoladamente, a solução para a dor cervical.
O ponto central para orientar equipes e lideranças é que a prevenção eficaz combina ajustes pontuais de ergonomia com incentivo real à movimentação ao longo do dia e não a vigilância constante sobre a "postura correta" na tela.
Quando encaminhar para avaliação médica ocupacional
Nem toda dor cervical é apenas um sinal de que é hora de se mexer mais. Embora a mensagem central deste artigo seja evitar o medo excessivo do movimento, alguns sinais indicam que o colaborador deve ser encaminhado para avaliação médica, e não apenas orientado sobre hábitos:
• Dor persistente ou que piora progressivamente ao longo dos dias;
• Dor irradiada para os braços;
• Perda de força ou alterações de sensibilidade (formigamento, dormência);
• Dor intensa que não melhora com repouso ou mudança de posição.
Nesses casos, o encaminhamento para avaliação médica ocupacional e, quando aplicável, o registro no Atestado de Saúde Ocupacional (ASO) ou acompanhamento pelo SESMT é a conduta adequada. O objetivo não é gerar alarme a cada desconforto pontual, mas garantir que sintomas persistentes ou com sinais de alerta sejam avaliados por um profissional, evitando tanto a banalização quanto o excesso de cautela que leva à imobilidade desnecessária.
Conte com a Meta para estruturar a prevenção na sua empresa
Entender os reais fatores de risco da dor cervical é o primeiro passo. O próximo é transformar esse conhecimento em ações práticas dentro do PGR e dos programas de ergonomia da sua empresa. A Meta Medicina e Segurança do Trabalho apoia empresas na estruturação de programas de saúde ocupacional que vão além do ajuste pontual de posto de trabalho, integrando ergonomia, gestão de riscos e acompanhamento médico ocupacional.
Em Resumo
A dor no pescoço é causada pela postura ao olhar para o celular? Não isoladamente. Estudos recentes não encontraram relação entre a flexão do pescoço durante o uso do smartphone e o risco de desenvolver dor cervical.
Então o que realmente causa a dor cervical? Fatores como baixa qualidade do sono, sedentarismo, tempo prolongado na mesma posição, estresse e condicionamento físico têm relação mais consistente com o surgimento da dor.
Quando a dor no pescoço deve ser avaliada por um médico? Quando é persistente, piora progressivamente, é acompanhada de perda de força, alterações de sensibilidade ou dor irradiada para os braços.
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